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Evelyn Grumach entrevistada pela revista Webdesign

30.05.2007 | A entrevista concedida por Evelyn Grumach a Luís Rocha, sobre síntese visual no design para web, foi publicada na edição 41 da revista Webdesign (maio de 2007), e nós a reproduzimos a seguir.




O equilíbrio entre excesso e redução:
a síntese visual no design para web


Você pode contar com os melhores softwares do mercado e ter a disposição uma invejável infra-estrutura tecnológica para funcionamento de seu site. Porém, nada disso serve de garantia que o processo de leitura visual de seu público-alvo seja aquele que você pretende transmitir com o seu projeto.
Nesta caminhada, será preciso trabalhar de forma minuciosa a aplicação dos conceitos de síntese visual, de maneira que a interface reflita o correto equilíbrio entre o excesso e a redução na arrumação dos elementos (forma e conteúdo) ali presentes.
“Síntese visual não é enigma a ser decifrado. Síntese é eliminar aquilo que possa confundir o bom andamento da informação”, explica Evelyn Grumach, professora de design gráfico na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e sócia do eg.design (www.egdesign.com.br). Nesta entrevista, a professora vai analisar as principais características e particularidades que envolvem tais parâmetros no design para web. Boa leitura!

Wd :: No texto “Princípios de Design” (http://tinyurl.com/ qbxus), a professora Isabela Lara Oliveira diz que “...o designer deve usar cuidadosamente a colocação dos elementos para dirigir o olhar do leitor através da peça”. Assim, na concepção de um projeto gráfico, quais elementos vão determinar a constituição da linguagem visual de um layout?
Evelyn :: Uma questão que se coloca hoje é a polarização entre a regra básica fundamentada na hierarquia das informações e outra forma na comunicação que se dá pela multiplicidade e simultaneidade. Ao designer, enquanto intermediário nesta cadeia, cabe a decisão de determinar de que forma e com quais artifícios seu projeto atingirá os objetivos: ao leitor que busca um “zapping” visual, a questão da hierarquia não se coloca; àquele que busca uma verticalização da informação, a ordenação deste conteúdo se faz necessária.
Citando Wolfgang Weingart, no seu livro “Como se pode fazer tipografia suíça?” (Editora Rosari - Coleção “Qual é o seu tipo?”), a questão destas fronteiras já se fazia presente em 1972: “Tipografia é transformar um espaço vazio num espaço que não seja mais vazio. Isto é, se você tem uma determinada informação ou um texto manuscrito e precisa dar-lhe um formato impresso com uma mensagem clara que possa ser lida sem problemas, isto é tipografia. Mas esta definição tem o defeito de ser muito curta. Tipografia pode ser também algo que não precisa ser lido. Se você gosta de transformar partes dessa informação em algo mais interessante, pode fazer algo ilegível, para que o leitor descubra a resposta.”

Wd :: A interação homem-computador é uma das questões fundamentais para entendermos o processo de percepção visual. Na edição de outubro de 2006, quando analisamos as relações entre design e arte, Ronaldo Gazel ressaltava que “...é louvável buscarmos referências nos movimentos artísticos para criarmos interfaces um pouco mais humanas, que tornem o ato de interagir um processo cada vez mais semelhante ao agir natural do homem”. Pensando nisso, quais são os fatores que influenciam na percepção visual de um projeto gráfico?
Evelyn :: A relação entre artes visuais e design são intensas desde sempre. Do art nouveau à Bauhaus; do Construtivismo à desconstrução; da Pop ao grafite, todas as questões conceituais e formais propostas refletiram e se refletem sobre nós, incorporando e transformando as manifestações visuais delas decorrentes.
No entanto, a percepção visual não é suficiente para humanizar a relação homem-máquina. A tecnologia em si precisa considerar o usuário propondo sistemas lógicos, construtivos e amigáveis cuja materialização será dada então pela aplicação de códigos visuais.

Wd :: Em entrevista para o caderno de informática do jornal O Globo (http://tinyurl.com/238yvn), Jakob Nielsen, considerado um dos “gurus” da usabilidade na web, citou os sites da Amazon, Google e Yahoo! como os “websites mais bem desenhados na internet”. Segundo o especialista, o ponto comum entre eles seria “...a capacidade de tirar o design do caminho na hora em que os usuários querem chegar a esse conteúdo e a essas soluções”. Na sua opinião, qual seria a melhor definição para o conceito de síntese visual aplicada ao design?
Evelyn :: Creio que esta afirmativa carece de clareza e objetividade: os sites citados são o que são, por conta do design. A ausência referida, na verdade, é a ausência de um design que privilegia a expressão em detrimento das necessidades de comunicação e informação.
O domínio do designer é o domínio das interfaces, lembrando a citação de Gui Bonsiepe, no livro “Design do material ao digital” (Fiesc/Sebrae-SC): “O design é o domínio no qual se estrutura a interação entre usuário e produto, para facilitar ações efetivas”.
O conceito de síntese visual como a forma sintética, econômica e universal aplicada a uma informação, serviço ou ação, e que pudesse alcançar um número significativo de pessoas ou usuários, está sendo revisado e, por isso, ainda confundido.
No mundo da pós-modernidade, mais fragmentado, mais customizado, as informações ou as necessidades são específicas, particulares e buscam igualmente alcançar seus objetivos. A ausência de expressão como canal de personalização de um projeto é uma escolha tão válida quanto à expressividade.

Wd :: No processo de constituição de uma linguagem visual limpa, quais parâmetros devem ser utilizados para se alcançar a síntese visual em um projeto gráfico?
Evelyn :: Em primeiro lugar, conhecer o conteúdo a ser trabalhado e assim detectar e ordenar a hierarquia das informações a serem dispostas (qual a natureza dos textos, das imagens, do discurso visual).
Em seguida, minimizar o uso de elementos gráficos, renunciando ao prolixo, ao múltiplo, ao excesso; tornar a escolha gráfica o motivo, a idéia central do projeto e com isso, valorizá-la. Além disso, priorizar a legibilidade e prestar muita atenção às escolhas das fontes.

Wd :: Na edição de novembro de 2006, ao abordar os conceitos fundamentais do design, o professor João Leite apontava que “...o ambiente do hipermídia é uma novidade por nós ainda explorada como se fosse papel. Como se fosse uma superfície plana sobre a qual se dispõe a informação, sem considerar que este ambiente, por exemplo, acaba com a perspectiva renascentista. A lógica, por exemplo, pode ser das superposições. Dos planos que se encobrem e por vezes permitem transparências”. Dessa forma, quais seriam as principais diferenças na aplicação dos conceitos de síntese visual em projetos impressos e digitais?
Evelyn :: Ainda elaboramos o pensamento na superfície do plano. A tela do computador é ainda uma representação planar de um mundo virtual complexo, concebido para representar um universo de recursos ainda indefinidos.
De uma certa maneira, em um primeiro estágio, o ambiente virtual age (guardadas as devidas proporções) como as nossas antigas enciclopédias, transformando-se em locais de arquivamento, reprodução e divulgação do conhecimento adquirido. E, para tal, a estrutura da informação, na forma que conhecemos, é aplicada com resultados imediatos, pois reconhecemos facilmente o que nos está apresentado.
Em outra mão, ocorrem as novas informações e representações nascidas desta nova tecnologia, os jogos com sua estética própria, e as experiências levadas a cabo no Media Lab (www.media.mit.edu), do Massachusetts Institute of Technology (MIT), por exemplo.
A estas novidades espera-se que, acompanhadas de novas linguagens, tragam novos paradigmas, transpondo do mundo virtual para o mundo dito concreto estas novas representações.

Wd :: No processo de reformulação gráfica do blog Usabilidoido (http://tinyurl.com/yv2ks2), Frederick van Amstel revelava sua admiração pelo design minimalista. No entanto, ele citou um ponto importante, que envolve a redução exagerada dos elementos de uma interface. Quais são os limites para se aplicar tais conceitos?
Evelyn :: É imprescindível que saibamos sobre o que e para quem estamos projetando. A natureza do conteúdo e do público/usuário pode levar a soluções específicas e próprias ao assunto em questão.
É função do site ser autoexplicativo, ser “transparente”, ser navegável, procurar objetividade. Isto se aplica tanto para os sites de entretenimento como para os de buscas, para as pesquisas e tudo o que até hoje se dispõe pela rede.
A redução exagerada, assim como os excessos, são muitas vezes resultado de estilos submetidos a padrões dependentes da moda e do efêmero, em claro descompromisso entre conteúdo e forma.

Wd :: Como a usabilidade deve ser inserida dentro do processo de síntese visual em um projeto gráfico?
Evelyn :: O conceito de usabilidade é a alma do site. Em se tratando de uma mídia não passiva, a interatividade é fundamental. A idéia de síntese não se afasta da necessidade de demonstrar o uso das informações, que, por sua vez, são apresentadas graficamente: ora por textos, ora por imagens, ora por ícones. Síntese visual não é enigma a ser decifrado. Síntese é eliminar aquilo que possa confundir o bom andamento da informação.

Wd :: Um dos aspectos que causam uma certa confusão na área é o conceito de funcionalidade na concepção de um projeto gráfico. Segundo o professor Rafael Cardoso, “...a idéia que as pessoas costumam fazer de funcionalidade é inteiramente equivocada. ‘Função’ não existe, pelo menos no sentido funcionalista, com F maiúsculo. ‘Função’ como contraposição à ‘Estética’ é um desastre conceitual, que só tem prejudicado o design”. Quais são os erros mais comuns na aplicação dos conceitos de síntese visual na criação de um layout?
Evelyn :: A função, tratada como verdade absoluta, como cerne central do projeto, tende a homogeneizar as expressões estéticas e particulares do grupo para qual se destina.
Na mão oposta, muitas vezes, os layouts podem resultar em manifestações muito individualizadas do designer, que sente uma necessidade de personalizar seus projetos e pode apresentar um excesso de esteticização que vai se sobrepor às necessidades objetivas do layout.
Estar refém dos padrões estéticos vigentes, associado a poucos critérios na seleção dos recursos gráficos adotados, pode tornar o projeto em uma espécie de catálogo de recursos potenciais e conseqüentemente não adequados, desligados de sua realidade.


Exemplos na aplicação dos conceitos
de síntese visual

Emigre
“Informações bem ordenadas, valorização das imagens (ótimo tamanho) e boa navegação, além de ser graficamente bonito.” (Evelyn Grumach)

ReBrand
“Um site claro, arejado, que contém muita informação e muitos textos.” (Evelyn Grumach)

iStockphoto
“Um site carregado de imagens, bem classificado e ordenado para que se encontre, dentro de um oceano de imagens, o que se está buscando.” (Evelyn Grumach)


Bibliografia recomendada
"Pensar com tipos"
Autora: Ellen Lupton
Editora: Cosac-Naify

"Making and breaking the grid"
Autor: Timothy Samara
Editora: Rockport

"Como se pode fazer tipografia suíça?"
Autor: Wolfang Weingart
Editora: Rosari

"Design do material ao digital"
Autor: Gui Bonsiepe
Editora: Fiesc/Sebrae-SC

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